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Dizem uns que as Terras Encantadas foram criadas pelos Homens
das Pedras Grandes, estando para as Terras Esquecidas como o
forro de um casaco. Dizem outros que já existiam e que eles
apenas as descobriram e criaram as portas que as ligam ao nosso
mundo.
A
geografia das Terras Encantadas é a mesma das Terras Esquecidas.
Apenas alguns elementos da paisagem estão alterados pelas obras
construídas de um e de outro lado. Ainda assim, algumas
edificações existem nos dois mundos: pontes, torres, antas e
outras construções onde foram encantados mouros, tornam-se
portas de entrada para as Terras Encantadas e passam a existir
nos dois lados da passagem.
Durante as primeiras incursões às Terras Encantadas, o Povo das
Pedras Grandes deparou-se com os temíveis seres que habitavam
aquele mundo e, compreendendo a ameaça que eles representavam,
deixou de construir os acessos e afastou-se dos que já existiam,
passando a erigir as suas povoações em locais elevados e
fortificando-as, para garantir alguma segurança no caso dessas
criaturas entrarem nas Terras Esquecidas.
Um
pequeno grupo decidiu, apesar dos perigos, ir viver para as
Terras Encantadas. Foram os primeiros humanos a fixarem-se ali,
onde vivem há cerca de três mil anos. Durante quase dois
milénios foram os únicos homens provenientes das Terras
Esquecidas a habitar aquele mundo. Ao longo desse tempo
exploraram-no em viagens discretas, nas quais procuraram
observar e conhecer todos os seres com quem partilhavam aquele
espaço, sem que estes se apercebessem da sua existência.
Tiveram o cuidado de permanecer afastados dos Encobertos, mas
por acreditarem na importância de conhecer os hábitos e os
movimentos dos Senhores do Mal, mantiveram sempre uma vigilância
discreta sobre o seu território.
Os
Encobertos não têm forma definida, cada pessoa vê-os do modo
como concebe o reino sobre o qual cada um deles domina: a Morte,
o Sofrimento e a Dor. Dizem uns que os Encobertos são uma das
anomalias que resultaram da criação das Terras Encantadas. Dizem
outros que foram os Encobertos quem as criou, em tempos tão
antigos que não existia qualquer outro ser vivo para o poder
recordar.
Algumas
lendas atribuem a criação dos asinomens aos Encobertos, a partir
de homens que raptaram nas Terras Esquecidas ou de homens
capturados ao entrarem inadvertidamente nas Terras Encantadas.
Além dos asinomens, os Encobertos controlam também as bruxas, os
basiliscos, o Homem da Foice, o Entreaberto e outras criaturas
malignas através das quais lançam as suas ofensivas contra os
mouros.
Um
pequeno número de sábios, em cada um dos povos que se sucedeu na
ocupação do território que hoje corresponde a Portugal, teve
conhecimento da existência das Terras Encantadas, mas foram os
árabes quem mais aproveitou esse conhecimento. Com a reconquista
cristã, iniciada a norte da Península Ibérica, muitos mouros
encantaram as filhas, irmãs ou mulheres para não as exporem aos
perigos de uma retirada apressada por caminhos inseguros.
Fizeram-no com a esperança de, mais tarde, recuperarem o domínio
desses territórios e libertarem-nas dos encantamentos.
Outros encantavam-se a si próprios e aos seus povos, quando se
viam cercados pelos exércitos inimigos, sem possibilidade de
salvação. Outros ainda foram encantados em resultado de uma
qualquer punição.
Assim, foi no norte das Terras Encantadas que surgiram os
primeiros castelos e palácios de mouros. Ao serem encantados
estes homens e mulheres aperceberam-se das capacidades que
haviam adquirido: tornavam-se mais fortes, mais belos, ganharam
poderes mágicos e viram-se senhores de fabulosos tesouros. Mas
essas capacidades não os faziam esquecer a vontade de regressar
às Terras Esquecidas. E, embora levassem a cabo grandes viagens
para explorar o mundo onde tinham sido aprisionados, não
desistiram de encontrar alguém que lhes quebrasse o
encantamento. Aqueles que não o conseguiram, acabaram por se
conformar e adaptar às Terras Encantadas e à sua nova
existência.
Durante cinco séculos e, à medida que o território de Portugal
foi sendo conquistado pelos cristãos, foram chegando às Terras
Encantadas cada vez mais mouros, que procuraram organizar-se
para fazer frente às ameaças dos Encobertos e dos seus
seguidores.
Foram vários os guerreiros mouros que se destacaram nesse
combate, levando a cabo proezas que ficaram na memória de todos,
tornando-se figuras lendárias, como foi o caso de
Amenhamet que,
entre outros feitos, conseguiu roubar a espada a um dos
Encobertos.
Mas nem sempre a convivência entre os mouros foi pacífica. Se em
muitos casos se criaram alianças, noutros surgiam inimizades e
guerras que os enfraqueceram.
Por outro lado, se alguns mouros conseguiram libertar-se do
encantamento que os prendia às Terras Encantadas, outros viram o
seu encantamento dobrado, como consequência de os humanos em
quem confiaram para os desencantar terem fracassado nesse
propósito e caíram, contra sua vontade, sob a influência das
forças das trevas.
Com a reconquista definitiva do Algarve foram muitos os mouros a
ser encantados no sul, o que tornou esta região a mais
densamente povoada das Terras Encantadas. Ali foram construídas
cidades magníficas, onde a arquitectura, a ciência, a filosofia
e a poesia atingiram níveis nunca antes vistos.
Depois
de terminada a reconquista do território português, o mestre de
uma ordem de monges guerreiros que descobrira a existência das
Terras Encantadas, durante os estudos de magia que desenvolveu
em segredo, encantou todos os elementos da ordem para que
pudessem estender àquele mundo, onde tantos mouros se tinham
refugiado, a guerra contra os sarracenos.
Quando descobriu que a magia dos Homens das Pedras Grandes era
alimentada pelas forças cósmicas captadas pelos menires e
cromlecs que erguiam, Abu Sakan, o mago que ficou aprisionado
nas Terras Encantadas com o objectivo de vigiar e perseguir
Balen al-Farah, e que mais tarde ofereceu os seus préstimos aos
Encobertos, decidiu conquistar o território daquele antigo povo.
Um
dia introduziu-se dissimuladamente entre eles, talvez sob a
forma de um animal insuspeito, e conseguiu disseminar uma doença
que matou metade da população. Ao descobrir o que estava a
acontecer, Zahara, a Senhora das Águas, foi em auxílio do Povo
das Pedras Grandes, protegendo-o de um ataque de asinomens e
curando todos os doentes que ainda não tinham morrido. Desde
essa altura, e apesar de continuarem a viver em total
isolamento, os homens das Pedras Grandes passaram a ter uma
atitude mais tolerante para com os mouros e um respeito enorme
por Zahara.
Pouco mais de um século após chegarem às Terras Encantadas, os
Monges da Ordem Negra, como os mouros chamaram à ordem de monges
guerreiros, deu início a um dos episódios mais dramáticos da
história daquele mundo. A Ordem Negra raptou um recém-nascido
mouro, a quem deu o nome de Tiago, instruiu-o nas artes da guerra
e da magia e, quando ele completou 88 anos, iniciou uma guerra
contra os mouros.
Aproveitando a fragilidade dos territórios do norte e as
rivalidades que existiam na altura entre os inúmeros pequenos
emirados em que os territórios do sul se dividiam, avançaram
pelas Terras Encantadas dizimando os mouros, com Tiago na
frente, mostrando ter a força de duzentos homens e ser imune a
flechas e lanças. Matavam todos quantos encontravam, destruíam
castelos e palácios, queimavam colheitas. O seu objectivo não
era conquistar terras ou riquezas, mas unicamente acabar com
todos os mouros.
Mohamed Aben Amid, seguindo os concelhos de Zahara, uniu vários
territórios do sul em dois grandes emirados. O de Xelb, que
ficou sob o seu comando, e o de Mirtolah, que foi dado a
al-Mundhir. Lado a lado, os dois homens conduziram os mouros à
vitória, embora al-Mundhir tenha perdido a vida nessa guerra.
Tiago foi morto, a sua invencibilidade desmentida e a Ordem
Negra sofreu uma derrota da qual até hoje não conseguiu
recuperar, limitando-se actualmente a curtas acções de
guerrilha.
A
Guerra da Ordem Negra, como ficou conhecida, durou cerca de nove
anos e custou a vida a quase metade dos mouros das Terras
Encantadas.
Para
evitar confrontos com os Encobertos, durante a guerra, a Ordem
Negra estabeleceu um pacto de neutralidade com Cassima, que
reinava sobre todos os mouros encantados sob a forma de
serpente, e que conseguiu esse domínio com o apoio de Abu Sakan
e dos Encobertos, a quem passou a prestar vassalagem.
Quando terminou a Guerra da Ordem Negra. Aproveitando a
debilidade em que se encontravam os outros reinos mouros, a
Senhora das Serpentes, apoiada por alguns bandos de basiliscos,
lançou uma vaga de ataques aos povoados do Centro e do Norte
que, por serem menos populosos, tinham exércitos mais fracos.
Mas a nova organização política que resultou da Guerra, trouxe
aos mouros que se opunham às forças do mal uma organização mais
eficiente e uma mais rápida capacidade de resposta. Dos emiratos
de Xelb e Mirtolah partiram exércitos que obrigaram os
mouros-serpente a recuar para as florestas sombrias do Centro
das Terras Encantadas, onde viviam, e só os Encobertos, que
vieram em seu auxílio, evitaram que Cassima sofresse uma derrota
desastrosa.
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Perante a fragilidade em que a Guerra da Ordem Negra tinha
deixado os mouros, Zahara decidiu que era tempo de dar forma a
uma arma que há muito se sabia ter de vir a ser criada. A
Senhora das Águas foi a Sharish buscar um grande bloco de
cristal, que estava à guarda de Balen al-Farah, e levou-o para
Xelb onde, em segredo e juntamente com Bahaedin al-Jawhar, seu
marido, e o emir Mohamed Aben Amid, o trabalhou até dar forma ao
Elmo de Cristal, um objecto mágico que transmite um poder
ilimitado a quem o usar. O cristal, já sob a forma de Elmo,
retornou a Sharish para que ficasse sob a protecção de al-Farah
até chegar o momento de ser usado.
Os
séculos que se seguiram foram relativamente calmos e a paz foi
apenas esporadicamente interrompida por assaltos de asinomens e
de mouros-serpente aos reinos e povoados mais desprotegidos.
As
forças do mal pareciam ter recolhido aos seus covis e durante
muito tempo deixaram de se ouvir relatos de movimentações de
criaturas ameaçadoras como os basiliscos, as almajonas ou os
próprios Encobertos. Até que Abu Sakan descobriu a existência do
Elmo de Cristal e a ameaça que ele poderia representar para as
Forças do Mal e lançou um ataque maciço a Sharish. |