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"Os Mouros das Terras Encantadas" têm
as suas raízes na cultura tradicional portuguesa. Histórias
insinuadas por recantos mal iluminados de paisagens recônditas ou
pelas formas sinistras que os ramos das árvores assumem ao
anoitecer. Da solidão imensa das planícies do Alentejo, do
isolamento opressivo dos sinuosos vales das Beiras ou das austeras
montanhas de Trás-os-Montes, saltaram para serões gélidos, passados
em redor da lareira e, enquanto se ouvia o gemido do vento sobre a
chaminé, tomavam vida na voz de quem as contava e no espírito de
quem as ouvia. Muitas destas histórias perderam-se ao desaparecerem
as últimas pessoas que as albergavam na memória. Outras, talvez uma
pequena minoria, sobreviveram e chegaram aos nossos dias graças ao
trabalho de antropólogos e etnólogos que as procuraram e registaram.
Foi destas lendas, mitos e crenças –
vestígios de um mundo rural quase desaparecido – que nasceram os
livros da série “Os Mouros das Terras Encantadas”. Muitas destas
tradições têm as suas raízes mais profundas na pré-história, tendo
crescido e sido enriquecidas com o contributo de cada um dos povos
que passou pelo território que hoje corresponde a Portugal.
Lusitanos, Celtas, Romanos, Godos, Árabes
e Berberes, para referir apenas algumas das culturas que deixaram
marcas no nosso território, trouxeram ou moldaram lendas que
perduraram até ao nosso tempo, por vezes, com contornos muito
diferentes dos originais.
Um exemplo disso são as lendas de
mouras encantadas que, tendo origem em mitos que nos chegaram
através dos povos indo-europeus – Celtas, Lusitanos, etc – foram
modificadas até se colarem à memória da presença árabe.
De norte a sul do país, e não apenas no
Algarve como por vezes se pensa, abundam as lendas de mouras
encantadas. Sendo um dos vestígios mais perceptíveis dos 500 anos de
presença islâmica em Portugal, são também um dos elementos mais
recorrentes na cultura popular. É por essa a razão que as mouras
encantadas ocupam um lugar destacado nos
livros desta colecção.
Das lendas de mouros e mouras encantadas
foram retirados muitos dos elementos que compõem as histórias desta
colecção de livros. O ouro que se transforma em carvão; o cinto
oferecido traiçoeiramente com o objectivo de cortar ao meio quem o
usar; a moura que bate com o pé no chão três vezes para abrir uma
passagem; instrumentos de trabalho – como as charruas, grades ou
cangas – feitos em ouro e com características mágicas; os tesouros
fabulosos guardados pelas mouras encantadas; o romantismo e
melancolia que estão presentes em quase todas estas lendas – na
maior parte dos casos as mouras foram encantadas por motivos
trágicos –; figos que se transformam em ouro; o cântico triste que
as mouras entoam enquanto penteiam o cabelo ao luar; bem como a
beleza que lhes é atribuída e os magníficos palácios – muitos deles
subterrâneos – onde vivem, são, entre outros, elementos que se
repetem frequentemente nas lendas de mouras encantadas.
Mas muitas outras entidades, umas
benévolas, outras aterradoras, povoam o imaginário do nosso país,
como é o caso das Almazonas, do Entreaberto, da Diabólica ou do
Homem das Sete Dentaduras.
Muitas serão, certamente, as lendas e crenças que se perderam e não
podemos recuperar, mas as que resistiram à erosão da memória, para
além de contribuírem para o enriquecimento do nosso património
cultural, constituem uma matéria-prima inesgotável para
histórias de
aventuras e fantasia. |
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